
Vento amigo.
Hoje o vento está soprando desesperadamente essa saudade (sua). Meus lábios ressequidos, castigados imploram pelos seus, úmidos, fortes, delineados a base do desejo. Sinto a nostalgia da noite delirante vagando ao útero do silêncio, faminta, seca nas necessidades básicas de um olhar. Procuro por algumas estrelas desconexas, pelo menos uma, a mais atrevida do céu. Penso em seu corpoluz, divindade que adoro prostrada em minha solidão. Ouço o gemer do vento, em fúria apelativa e quero gemer com ele, chegar ao fundo de meu despir. Misturar-me à chaminé fumegada enquanto acolho o meu prazer boêmio circulando meus loucos pensamentos. Emoções delicadas, pornografia exata aos seus apelos em minha cama vazia. Estou longe do céu. Longe do paraíso. Longe de mim, longe de você. Firmo a idéia de que o vento não irá me arrancar. Vou fechar as janelas. Não quero ouvi-lo!
Droga! Você está injetado em minha veia. Não posso fugir. Não posso arredar o pé do inferno que aquece meu sentir em destemido querer a sua presença calma, quase preguiçosa. Da memória soletro o seu nome, o seu nariz, os seus dedos, unhas curtas, cabelos desalinhados, camisa desabotoada, quadro que espio a distância para não macular.
Olho para o copo de suco, ele está suando o frio que envenena meus ossos. Ei! Cadê você? O fim está recomeçando e a vírgula está ficando longa demais. Penteie sua ressurreição, não tenho a noite toda, muito menos à vida inteira. Essa já vai a outra não sei quando virá. O vento está calando... Chegue com o que ainda vem, ou bata a porta e apague essa chama que insiste em ficar acesa. Não sei se nos cabe o encontro, a espera ou o adeus. Pise de leve que o escuro não calçou as luvas e o vento, parceiro em coincidências não anotou a placa do tempo que nos atropelou.
Vou praguejar os trechos de um cálice entornado, assassinar essa hipótese de ser a dama de seus anseios ou a puta de sua oração secreta. Estive alucinada em suas correntes. Bebi demais de sua boca e vomitar é minha obra de arte. Prepare para o desvio de personalidade, a santa enlouqueceu no pedestal do correto. Estou queimando querosene para espantar mosquitos e essa é por nós que tristes mendigamos respostas.
Por vezes olhamos para fora da janela e tudo parece conspirar de acordo com o que queremos. Claro, usamos isso para responder as coisas que não conseguimos explicar. É quase como vestir o pijama e olhar para o espelho como se estivéssemos prontos para abrir a janela para receber a serenata que ele nunca fará. É a crença que o ser humano alimenta de que ele é o criador do universo que cabe em uma caixa de fósforos vazia e não cabe no peito de quem ama. É esse o caminho. Sei lá, mas é bom poder inventar um sorriso quando a carranca quer instalar. E rir de tudo sem preocupação, sem medo de atingir o grau elevado do vício de celebrar a vida em tinas de suspense.
A vida é sempre um istmo que conjuga o desejo de ser e o que é, até mesmo de maneira inconsciente. Por isso seja criança e não tema a força do silêncio. Saiba que nas passadas existe o segredo do caminho e as inocentes vozes que gritam pelo amor, pela paixão e pela paz são as mesmas que podem orientar suas manhãs quando o vento anuncia a noite em seu interior.
Hoje senti aquela saudade doentia e ele não soube. Ah! Esse vento! Esse vento não sabe com quem ele brinca. Desesperadamente o vento cessou. Aconteceu. Eu apaguei as luzes do mundo, fechei a janela e sorri. O mundo anda a nosso favor. Loucura pouca é não enxergar o adeus quando ele se faz tradução do início.
Perdemos uma paixão, um amor que fazemos valer. Ganhamos a dor para retratarmos a cura. O aprendizado é um tambor na memória quando pescamos a quina de um círculo.
Enquadre seus olhos no porvir. O vento é parceiro para o além.
Eliane Alcântara.
Escrito por Eliane Alcântara. às 12h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|